domingo, abril 02, 2006

Estátuas


Conta-se esta história, retirada de qualquer paisagem etérea, de um poeta perdido em algum lugar remoto da face da Terra, e certo mal e agonia que o teria acometido. Talvez a paisagem não fosse não tão remota assim. De fato, poderia ter sido em qualquer lugar, e poderia ser descrita de qualquer maneira pela mente já doentia do poeta. Mas minhas observações não interessam, uma vez que sou apenas um mero observador externo, sentado na janela observando a paisagem etérea criada pelo poeta para ser sua própria masmorra. E cada um entenda esta história à sua maneira, contada em poesia e escrita em prosa ou vice-versa.
Havia uma pessoa naquele canto.
Encostada na pedra cantando aos prantos
Versos que não significavam tanto.

Como poderia chorar tanto
Em um dia ensolarado numa praça,
Com crianças sorrindo como encanto
Casais enamorados abraçados
Fossem eles idosos ou jovens apaixonados
Curtindo um dia cheio de graça?

Puro engano,
Dizia ele que não estava chorando.
“Estátuas não choram.”
Recitava o poeta insano.

E ele falava sobre cães atropelados,
Sobre abutres e condenados,
Pontos, retas e nada,
E de “mas”, nada.

E falava da tundra e da neve,
E de ventos frios,
De gelo, tempestades, neblinas,
E de sol, calor, temperaturas amenas,
Praias, verões, desertos, mares, rios,
E por fim gritava, como se fosse sua sina:
“Estátuas não Choram!!!”

E retornava ao lamento,
Rindo das desditas
Disfarçando a alma entristecida.
E saiu, palidamente sorrindo.
Disse ainda, por um último momento:
“Estátuas não choram”.

E na névoa ele se foi.
Ainda escuto seu lamento moribundo, “Estátuas não choram”...
E depois de tanto tempo, cada vez que escuto o ressoar deste verso (e como ainda ressoa, meu Deus!), entendo afinal que mal acometia o poeta.
É bem verdade que estátuas parecem não chorar. São frias, imóveis, impassíveis... Mas elas choram. Só choram quando chove, para que suas lágrimas escorram disfarçadas sobre seus rostos com as águas da chuva (seria também tais águas o choro de alguém?). Algumas continuam a chorar depois da chuva, apesar do rosto insensível, deixando perceber ao menos as marcas das lágrimas.
O poeta sabia mais que ninguém sobre isto. E era esta sua desgraça. Esqueceu como amar, como odiar, como sorrir, como chorar,... e isto até as estátuas sabiam. O poeta perdera o que lhe era mais caro. O poeta perdera a poesia...

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